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quinta-feira, 2 de março de 2017

Por que empresários bem sucedidos são corruptos? Harvard responde



O que leva empresários e executivos bem-sucedidos a enveredar por caminhos ilícitos? Para Eugene Soltes, da Harvard Business School, tem menos a ver com cobiça e falta de caráter do que se pensa. A distância física e psicológica das vítimas faz essas pessoas perderem a noção do estrago que podem causar
Por Paulo Vieira para a revista Poder de fevereiro
Não faltariam personagens no Brasil. E tampouco nos Estados Unidos, país onde está grande parte dos empresários e executivos citados no livro Why They Do It: Inside the Mind of the White-Collar Criminal (PublicAffairs, não lançado por aqui), que tenta explicar por que profissionais extremamente bem-sucedidos enveredam pelo caminho do crime corporativo. Seu autor, Eugene Soltes, professor da Harvard Business School, fez longo inventário sobre o surgimento desse crime e entrevistou gente que botou para quebrar, como Bernard Madoff, condenado a 150 anos de prisão por ter montado um esquema de pirâmide que levou seus investidores a um prejuízo de pelo menos US$ 18 bilhões. Mesmo na cadeia, Madoff não sossegou: monopolizou a compra do chocolate instantâneo para vender o produto com ágio para os colegas e, segundo se noticiou, recentemente levou um tapa de outro detento por mexer na posição da TV sem autorização dos “parças”.
Se até o fim dos anos 1960 despachar empresários e altos executivos para a cadeia era algo francamente desconfortável, no começo do século 21, em um período de apenas cinco anos, 200 CEOs, 50 CFOs e 120 vice-presidentes foram condenados por crime do colarinho branco nos Estados Unidos. Ainda assim, a corrupção cresceu nas corporações. Para Soltes, empresários e executivos fazem isso menos por cobiça ou por serem essencialmente maus, mas por não verem dano associado às suas ações e por estarem física e psicologicamente distantes de suas vítimas.
Nesta entrevista exclusiva a PODER, Soltes fala sobre o crescimento do crime corporativo no mundo, diz ser “encorajador” ver sinais de que países como o Brasil vêm tentando cada vez mais lidar com o problema, acha que os sistemas de compliance podem falhar na proteção dos funcionários e ainda tenta responder a uma pergunta que não quer calar: a Odebrecht vai sobreviver?
PODER: Em seu livro, o senhor mostra de que forma executivos trilharam caminhos em direção ao crime do colarinho branco. Há uma coleção grande de exemplos. Mas uma questão ficou, e ela é justamente o leitmotiv da obra: por que fizeram isso? Se tivesse de escolher uma única razão, qual seria?
EUGENE SOLTES: Executivos não veem o dano associado às suas ações ao tomar decisões passíveis de serem criminalizadas. No crime do colarinho branco, as vítimas estão distantes física e psicologicamente. Como resultado, não há o mesmo sentimento que se tem quando se inflige o mal às vítimas dos crimes comuns.
PODER: Ocorre no Brasil uma enorme investigação relacionada a crimes perpetrados por políticos e seus financiadores em companhias privadas ou estatais. O controlador da Odebrecht, maior empreiteira do país, por exemplo, está na cadeia e mais de 70 executivos assinaram acordos de delação premiada. Comparadas às empresas que o senhor estudou, acha possível que a Odebrecht mantenha sua força depois da investigação?
ES: Há companhias que conseguiram se recuperar. Computer Associates e Tyco, por exemplo, tiveram seus executivos condenados e encarcerados e seguiram fortes. Nas que conseguem sobreviver, a atividade-fim é sólida, e a fraude ou não faz parte do negócio (desfalques financeiros, por exemplo) ou não é aplicadacom o intuito de sustentar a empresa (como na pirâmide montada por Bernard Madoff). O desafio que a Odebrecht e outras empresas nessa situação enfrentam é que sua capacidade de manter contratos e de atrair novos negócios pode se reduzir por conta da corrupção interna. Companhias sólidas podem cair se clientes considerarem preocupante fazer negócio com elas. Nos Estados Unidos, organizações muito maiores que a Odebrecht estão indo à bancarrota por conta de alegações de fraude e de corrupção.
PODER: Se Bernard Madoff pudesse liderar uma companhia novamente, ele montaria outra pirâmide? Pessoas que incorrem em crimes do colarinho branco aprendem com seus erros ou esse comportamento é compulsivo?
ES: Não creio que Madoff tenha premeditado a criação de um esquema de pirâmide. Seu caso é trágico porque, como outros executivos com quem tive contato (para escrever o livro), ele é genial. Seu brokerage business (negócio que assessora na compra e na venda de ações) é responsável por inovações importantes em diversos mercados financeiros. Ao mesmo tempo, criou um sistema fraudulento. Quando a pressão era grande, em vez de parar, ele cavou mais fundo. Em outra vida e em outro mundo, talvez pudesse ser lembrado como um grande líder do sistema financeiro.
PODER: Dois casos de executivos condenados e presos citados em seu livro, Rajat Gupta, da consultoria McKinsey, e Scott London, da KPMG, levam a crer que não é dinheiro nem mesmo vantagens pessoais que conduzem ao crime corporativo. O que seria, poder? Amizade?
ES: As razões são diversas e incluem amizade e
lealdade. Mas esses dois executivos bem-sucedidos não premeditaram ações criminosas. Há um caminho escorregadio que leva de um ponto a outro. Quando eles perceberam o que haviam feito já estavam envolvidos em ações de enorme repercussão.
PODER: Como as companhias podem desenvolver antídotos para os crimes do colarinho branco?
ES:  A eliminação total desses crimes nas corporações é inviável. Os custos altíssimos talvez criassem mais dano. Mas não se deve aceitar o nível atual de infrações. Um dos principais desafios está no fortalecimento da cultura corporativa. É comum firmas criarem sistemas de compliance que são mais focados em regras do que em proteger seus funcionários. Vejo muitas pessoas inteligentes e bem intencionadas engajando-se em atividades criminosas não por terem se tornado más, mas por sucumbir às circunstâncias, aos estímulos e às pressões que as cercam.
PODER: Depois que o senhor terminou de escrever seu livro algo mudou no mundo do crime corporativo?
ES: Acredito que houve um incremento da preocupação com essa questão no mundo. Historicamente, Estados Unidos e Reino Unido sempre estiveram na linha de frente do combate à corrupção corporativa. Agora vemos outros países lidando com esses problemas, e o Brasil é o mais proeminente deles. Acho isso muito encorajador.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Grupo Pão de Açúcar aposta em parceria em seus ‘shoppings de vizinhança’

GPA Malls, braço imobiliário do grupo, negocia com redes de alimentação e serviços, dentro da estratégia de aumentar a rentabilidade de seus espaços de compras

Dentro de uma estratégia de rentabilizar seus ativos imobiliários, o GPA Malls, unidade de negócios imobiliários do Grupo Pão de Açúcar, negocia com redes de alimentação e serviços a instalação de lojas em seus shoppings de vizinhança. Esse tipo de empreendimento combina características do comércio de rua com as dos shoppings tradicionais. O modelo de negócios adotado engloba, inclusive, o planejamento de estratégias conjuntas de expansão entre o GPA Malls e os lojistas.

Com mais de 410 restaurantes espalhados pelo país, a Giraffas aposta nos shoppings de vizinhança como forma de atrair clientes interessados numa oferta de produtos e serviços mais ampla que a de um hipermercado normal. “Estamos alinhando nossos planos de expansão com os do GPA Malls por acreditar num modelo diferente de hipermercado”, diz Ana Centrone, gerente de Expansão da Giraffas, ressaltando que as parcerias da rede não se limitam ao Grupo Pão de Açúcar. “Um centro comercial com restaurante, lavanderia e cabeleireiro, por exemplo, onde você consegue resolver boa parte da sua vida, oferece um conjunto de ofertas que atrai muito mais o cliente.”
A Giraffas já tem contrato fechado para abrir uma unidade no Conviva Maracanã, empreendimento do GPA Malls com 13 mil metros quadrados de área bruta locável (ABL) que tem inauguração prevista para dezembro. O investimento para revitalização da galeria comercial com 50 lojas, situada num imóvel tombado na Tijuca, zona Norte do Rio de Janeiro, está orçado em R$ 20 milhões. “As galerias no entorno dos nossos hipermercados nunca foram o foco da empresa”, reconhece Isadora Sbrissa de Campos, diretora de Operações e Marketing do GPA Malls. “De dois anos para cá, passamos a olhar esses ativos imobiliários como oportunidade diferenciada de negócios, seguindo uma estratégia que veio da França, do Casino” (controlador do Pão de Açúcar).
Responsável pela administração de 290 mil metros quadrados de ABL, em mais de 200 galerias comerciais no país, o GPA Malls lançou no ano passado a bandeira Conviva, de shoppings de vizinhança, que hoje conta com duas unidades. “Vamos expandir o número de shoppings de convivência mas não necessariamente por meio da bandeira Conviva”, diz Isadora. No portfólio de projetos do GPA Malls há pelo menos cinco empreendimentos, além do Conviva Maracanã, com potencial para se transformarem em shoppings de vizinhança nos estados do Rio de Janeiro, Alagoas, Tocantins e São Paulo. “No berço, são tentativas de shoppings de vizinhança. Tudo vai depender do espaço físico disponível”, explica a diretora do GPA Malls.
A Rei do Mate negocia com a unidade de negócios imobiliários do Pão de Açúcar a instalação de três lojas em shoppings do grupo, duas em São Paulo e uma no Rio de Janeiro. “Há uma troca de informações. O GPA Malls nos passa dados sobre a estratégia de expansão deles e nós fazemos uma análise com base nestas informações e nas nossas”, conta Adriana Lima, diretora de Expansão e Operações do Rei do Mate, rede que conta com 336 unidades no país. A lista de parceiros do GPA Malls inclui ainda Subway, Spoleto e Dry Clean USA.
Carrefour também investirá em shoppings no Brasil
Outro peso-pesado do varejo, o Carrefour, desenvolve um programa para otimizar seus ativos imobiliários no Brasil. Por meio da divisão Carrefour Property, a multinacional francesa fechou contrato com a Odebrecht Realizações Imobiliárias para desenvolver um projeto na Marginal Pinheiros, na capital paulista, onde foi inaugurado o primeiro hipermercado da bandeira no Brasil, em 1975. O terreno, com 60 mil metros quadrados de área, vai abrigar um novo hipermercado Carrefour, além de outros produtos imobiliários.
Também está prevista para breve — a empresa não especifica quando — a remodelação do edifício que abriga um hipermercado Carrefour na Rua Pamplona, no bairro do Jardim Paulista, em São Paulo. O projeto engloba um shopping center integrado a um novo hipermercado da bandeira Carrefour. Com cerca de 15 mil metros quadrados de área bruta locável, o empreendimento inclui 60 lojas e alguns estabelecimentos-âncora.
No momento, a companhia aguarda a aprovação dos projetos pelos órgãos responsáveis para dar início às obras.

Por Rodrigo Carro
FONTE: Jornal Brasil Econômico  

 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os brasileiros caíram no conto da Copa

FONTE:  Coluna do Augusto Nunes. - Revista VEJA
Em 15 de junho de 2007, numa cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Lula avalizou com um sorriso e aprovadores movimentos de cabeça o palavrório de Ricardo Teixeira, comandante perpétuo da CBF. “A Copa do Mundo é um evento privado”, garantiu o supercartola. “O melhor da Copa do Mundo é que é um evento que consome a menor quantidade de dinheiro público do mundo. O papel do governo não é de investir, mas de ser facilitador e indutor”
Quatro meses depois, Teixeira repetiu no Rio a manifestação de apreço pelos pagadores de impostos. “Faço questão absoluta de garantir que a Copa de 2014 será uma Copa em que o poder público nada gastará em atividades desportivas”. Em 4 de dezembro de 2007, também no Rio, o ministro do Esporte, Orlando Silva, oficializou a promessa com o aval de Lula: “Os estádios para a Copa do Mundo serão construídos com dinheiro privado. Não haverá um centavo de dinheiro público para os estádios”.
Três anos e meio depois da discurseira, está claro que os brasileiros foram vítimas do conto da Copa. Lula queria transformar a festa esportiva em trunfo eleitoreiro. Ricardo Teixeira queria ampliar o cacife para disputar a presidência da FIFA ─ e continuar prosperando. Orlando Silva também queria continuar prosperando, e para tanto era necessário convencer os crédulos de que todo delinquente é recuperável. Como a farra dos Jogos Panamericanos de 2007, que deveria custar R$ 450 milhões, acabara de engolir R$ 5 bilhões, o campeão brasileiro de despesas superfaturadas achou prudente jurar que a Copa sairia de graça.
Conversa de vigaristas, confirmou a performance do ministro nesta quarta-feira. Com a arrogância dos condenados à impunidade, subiu a voz alguns decibéis e passou a exigir que o governo de São Paulo e a prefeitura da capital arranjem o dinheiro que falta para a construção do estádio do Corinthians. “Quando você se candidata a receber a abertura de uma Copa, eu imagino que você saiba das responsabilidades que possui”, falou grosso Orlando Silva.
Conforme o combinado, Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab estão investindo R$ 350 milhões em obras no entorno do local onde será erguido o estádio. O aprendiz de extorsionário acha pouco. Como a Odebrecht acaba de anunciar que o colosso orçado em R$ 650 milhões vai custar R$ 1 bilhão, quer que os paulistas banquem a diferença. E invoca o precedente aberto pelo governador Sérgio Cabral, que espetou nos bolsos dos fluminenses a conta da reforma do Maracanã. Deveria custar R$ 600 milhões. Acaba de saltar para R$ 950 milhões.
Como a Odebrecht, o consórcio que age no Maracanã aumentou a gastança em R$ 350 milhões. A quantia talvez tenha resultado da soma das comissões, propinas e taxas de sucesso. Até agora, a corrupção era medida em porcentagens. A bandidagem esportiva pode ter descoberto que fixar um preço para a roubalheira dá mais dinheiro e menos trabalho.